Sim, “preconceito” até pode ser uma das palavras mais utilizadas hoje em dia, mas não é pelo seu uso exagerado que deixa de ser a melhor noção de discriminação que existe.

A discriminação é a mais eficaz arma do preconceito e o seu objectivo é marginalizar, renegar grupos sociais com características diferentes.

É um erro de dois tipos: o preconceito, baseando-se em observações meramente superficiais, não constitui nenhum tipo de conhecimento e, por outro lado, apoiado em tradições antigas (que eram válidas no seu contexto histórico, mas que persistem até ao presente agarradas à cegueira do conformismo) acaba por não se enquadrar culturalmente.

O que quero com isto dizer é que algumas pessoas vivem demasiado amarradas a ideias antigas e desproporcionadas do quotidiano. Há mais de 30 anos que Portugal é um país livre, contudo, a verdadeira liberdade continua ainda distante de grande parte deste nosso país.

A sociedade é demasiado influenciada pelas aparências, ficando-se pelo mundo sensível e não conseguindo pensar no quão melhor é a vida se nos desmaterializarmos dos objectos a que tanto estamos habituados. Roupa, cor de pele, orientação sexual e estrato social continuam a ser objectos de marginalização por parte das pessoas mais superficiais. O nosso corpo e a própria sexualidade ainda são temas abordados com medo e apreensão. Eu pergunto: como é possível ter tanto medo da única parte de nós que é natural, o nosso próprio corpo? Qualquer tema íntimo remanesce um tabú até entre as camadas mais jovens.

Esta falta de expressão, por medo do “O que será que vão pensar de mim?”, é altamente prejudicial na partilha de experiências. As pessoas têm muito mais a dar de si, mas ficam amarradas aos preconceitos e acabam também por sufocar com as amarras dos que estão à sua volta.

Devo lembrar que “na base de qualquer preconceito contra uma cultura, um povo ou uma raça está sempre a ignorância, e a ignorância, tal como a sabedoria, não tem nacionalidade”.

Espero que este blog não se esteja a tornar uma seca. Confirmem-me. De qualquer forma, as próximas duas postas serão mais interessantes. Esta posta é daquelas de responsabilidade e activismo social (também é importante), mas da mesma forma que não me posso confinar a esse tema, vou tentar variar noutros.

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  1. Pedro Pereira
    on January 20th, 2010

    geralmente as pessoas preconceituosas encontram maneiras muito subtis (pensam elas) de se defender:o conservadorismo. puro engano! conservadorismo é presevar os bons costumes, sem, no entanto, se agarrarem a dogmas.
    fico triste quando dizem que a sociedade evolui. porque, na verdade, isso nao acontece. uma pequena minoria é tolerante, e a grande parte da sociedade é tal e qal como tu descreveste.
    grande post!

  2. LVSITANO
    on January 21st, 2010

    Obrigado, Pedro. Sim, já se anda a disseminar a ideia de que os preconceitos estão a desaparecer. Para mim, é bullshit, ou não reparasse eu que continua tudo igual.

  3. @faviouz
    on January 21st, 2010

    Ora relativamente à nota, eu acho o teu blog bastante interessante. Tudo depende do gosto do leitor, e se gosta de ler este tipo de coisas. Eu simplesmente não aguento a pedalada do nível de texto que se verifica em algumas postas bastante profundas e filosóficas.

    Prefiro ver postas sobre o teu dia-a-dia e sobre ti, coisas que te aconteceram, que descobriste, etc. Quando fazes outro tipo de postas, ou não comento porque não me interessa, ou caso tenha apanhado alguma coisa da posta pode ser que ainda partilhe alguma opinião sobre o assunto.

    Beijinhos.

  4. André Coroado
    on January 22nd, 2010

    Nesta posta fazes uma brilhante descrição da verdadeira natureza dos preconceitos, ao mesmo tempo que contextualizas na realidade da sociedade portuguesa actual e relacionas os preconceitos com a (in)capacidade de expressão da individualidade de cada um

    Organizaste as ideias de forma clara e objectiva, esmiuçando a temática dos preconceitos até ao fundo da questão. No meu ponto de vista, quaisquer objecções apontadas às ideias que expuseste neste post são totalmente desprovidas de fundamento e carenciadas de uma base racional. Qualquer pessoa minimamente inteligente compreende o estado de putrefacção em que os preconceitos lançam os seres humanos e desenvolve esforços no sentido de quebrar estas sólidas amarras.

    Gostei de quando referiste a discriminação como "a mais eficaz arma do preconceito". De facto, a discriminação é, por excelência, a manifestação do preconceito e o preconceito é sempre a razão que se esconde atrás de qualquer tipo de discriminação. Por isso, quando se censura a discriminação verificada na sociedade, todas as eventuais críticas devem procurar identificar claramente os preconceitos em questão e demonstrar a toda a comunidade a futilidade destes arcaísmos morais.

    A demonstração dos erros associados ao preconceito também está muito interessante. No entanto, gostaria de sublinhar um aspecto relevante: disseste que os preconceitos eram concepções válidas em determinados contextos sociais e históricos.

    Os preconceitos são necessariamente um erro lógico: em qualquer lugar, numa época qualquer, atribuir rótulos às pessoas ou às coisas em função de aparências sensíveis é uma atitude irracional e indigna do ser humano. Assim, parece-me que os preconceitos são inválidos independentemente da época histórica em que nos encontramos, devendo ser mitigados e destruídos em quaisquer circunstâncias.

    Podemos, contudo, atender ao aspecto racional das sociedades, isto é, a capacidade humana de olhar para trás, analisar os problemas, descobrir as causas dos nossos erros e corrigir os mesmos. Nesse caso, a sociedade de hoje terá mais responsabilidade e dever na eliminação dos preconceitos, porque pode estudar o passado e entender a influência malévola dos preconceitos sobre as populações, bem como a sua falta de afinidade com a razão.

    Só para terminar, gostaria de colocar uma questão: de onde virão os preconceitos? A hipótese que se me afigura mais plausível é a de que se baseiam num medo animalesco da diferença, um receio de que a legitimidade das nossas ideias e acções sejam postas em causa e refutadas no caso de existirem formas diferentes de (vi)ver o mundo e a vida. Mas talvez esta questão se revele mais complexa do que parece…

    Tal como o o Pedro disse, grande post! Quanto à nota, nada disso! O teu blog está muito bem e estas postas são uma componente muito importante! Além de se debruçarem sobre temas pertinentes, são aquelas em que consegues dar maior expressão ao teu estilo de escrita e exerces aquela influência moral positiva sobre a sociedade! De resto, ninguém é obrigado a ler o blog, e todos os fazemos de livre vontade!

  5. LVSITANO
    on January 24th, 2010

    Muito obrigado, isso é que é uma crítica construtiva. Kisses. ;)

  6. LVSITANO
    on January 24th, 2010

    O teu comentário está espectacular! Acabou por ser o teu post sobre os preconceitos, está absolutamente excelente.

    Quanto à tua questão: A ideia que queria transmitir é que há preconceitos que até se compreendem em certos contextos históricos. Por exemplo, até nos Maias isso acontece. A rapariga, Maria Monforte (obrigado pela correcção, André… são demasiadas Marias!), por ser filha de um negreiro é discriminada por Afonso (e seria pela maior parte dos aristocratas da altura). Claro que o facto de ser filha de um negreiro não diz nada sobre ela própria, pelo que não deixa de ser um erro. Apenas penso e reforço que é compreensível por se estar numa luta contra a escravatura…

    Claro que, como bem disseste, não deixa de ser irracional e errado, mas compreende-se. Hoje em dia, já nenhum preconceito se compreende porque todas as mentes estão mais evoluídas e abertas. Neste contexto histórico, o actual, da globalização e partilha, todo o preconceito já é inaceitável.

    Obrigado pelo teu fantástico comentário!

  7. André Coroado
    on January 25th, 2010

    Muito bem! Estou a ver que a leitura d' Os Maias está a produzir efeitos significativos! No entanto, só um pequenino aparte: a filha do negreiro é Maria Monforte e não Maria Eduarda. Este é o nome da mulher de Afonso (Maria Eduarda Runa) e da irmã de Carlos (Maria Eduarda).

    Sim, compreendo o que queres dizer. A aceitação dos preconceitos fazia sentido nessa situação. Nessa perspectiva, as pessoas preconceituosas não mereciam qualquer tipo de punição e dificilmente seriam censuradas. Como disseste, a compreensão dos preconceitos em determinadas épocas históricas não os torna válidos.

    De qualquer forma, eu tenho perfeita consciência da tua aversão por preconceitos. Só achei que não tinhas sido claro quanto a essa pequena questão. De resto, volto a dizer, gostei muito do post.

    E desculpa por ter feito um comentário tão extenso. Enfim, tantas coisas para dizer! Mas ainda bem que gostaste.

  8. LVSITANO
    on January 25th, 2010

    O que mais me interessa é que tenhas percebido (e já agora, compreendido) o meu ponto de vista quanto aos preconceitos de antigamente. Agradeço muito a correcção ao meu comentário. De facto, troquei os nomes. Não sei se será bem uma troca, já que há imensas (demasiadas!) Marias…

    Obrigado pelo comentário!

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